domingo, 15 de abril de 2012

Diário de um presidiário*

Erivan José dos Santos **

I
Qual é a finalidade de um presídio?
Perguntava a mim mesmo... como uma provocação,
Será que a minha imagem vai aparecer no vídeo?
Vai ser bom... porque aqui todos assistem à televisão!

II
De repente eu apareço, fico ainda mais “famoso”...
Puxa! Por que não pensei nisso antes? Bem que eu merecia...
O pessoal lá do morro só me chamava de “seboso”,
Ah! Vai ser uma verdadeira melodia!

III
Os manos da favela inteirinha me vendo lá na telinha...
E a moçada comentando, todos ligados em mim...
O sistema está falido, mas sei que a culpa não é só minha...
Opa! - Tive uma grande ideia - Vamos fazer um motim!

IV
Aqui ninguém faz nada interessante
E com essa ociosidade nunca vou me recuperar,
Quem vive detrás das grades a mente deve ocupar,
Então, sendo dessa forma a cadeia vai girar, avante!

V
Queremos reivindicar também os nossos direitos,
A fim de providenciar igualdades para os presos,
Pois, mesmo aqui na cadeia há inúmeros preconceitos,
Os presos remediados têm privilégios coesos!

VI
Viemos de uma sociedade visivelmente corrupta...
E de fato a nossa casta é diferente das outras,
Nós fazemos o contrário e agimos de forma abrupta,
Mas eles são tão vorazes que superam até as lontras!

VII
Talvez seja em razão do grau de intelectualidade...
Pois, eles são da elite desta tão grande nação...
E nós somos da ralé, filhos de “Maria” ou de “João”,
Somos a marginalidade de um país sem igualdade!



* Poesia publicada recentemente na Argentina, na Persona, Revista Eletrónica de Derechos Existenciales, Edição número 88, Ano 2012, janeiro.
** Jurista brasileiro

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